📌 Puxe a cadeira

Faz três meses que você se prepara pra hoje.

Virou especialista na empresa. Até os "nossos valores" estão na ponta da língua. Sabe mais que o CEO. Ensaiou as respostas no banho. Separou a roupa na véspera e deixou dobrada na cadeira, com os sapatos do lado. Foi dormir cedo. Ou pelo menos apagou a luz cedo.

São oito e dez da manhã. A entrevista é às nove, do outro lado da cidade.

Dava tempo de sobra.

Só que você ainda está de toalha na frente do armário, convencido de que aquela camisa tá marcando sua pochete. Quando resolve a camisa, lembra de uma mensagem que não dá pra adiar. Quando larga o celular, o café acabou de passar, e sair sem tomar seria uma puta sacanagem com você mesmo. O relógio, que estava tão folgado, começa a fechar o cerco.

Você desce as escadas de dois em dois degraus e pega o mesmo trânsito de sempre. No farol vermelho em frente ao prédio imponente de vinte e quatro andares que estampa o site da empresa, olha o relógio. Está quinze minutos atrasado para a entrevista que esperou um trimestre inteiro. Se pergunta como foi capaz. Justo hoje. Logo você, que se preparou tanto.

Mas tem uma resposta que você desvia toda vez que ela chega perto. No fundo, não foi só o trânsito. Em algum canto que você não costuma visitar, você deu uma mãozinha pro atraso acontecer.

E, por mais esquisito que pareça, tinha um bom motivo.

Nem tudo tá perdido

A professora faz uma pergunta e trinta mãos disparam pra cima. A sua na frente de todas, balançando, quase saindo do braço enquanto você pula na cadeira. "Tia! Tia! Eu sei!"

Você não sabia. Quase nunca sabia. Chutava "sessenta e quatro" com a maior cara de pau, ouvia a turma cair na gargalhada, dava de ombros e, dois minutos depois, lá estava a sua mão de novo, esticada pro teto, pronta pra errar outra vez.

Tem uma coisa nessa cena que parece boba e não é. Naquela idade, você nunca disse "eu nem tava tentando".

Esse truque você ainda não tinha aprendido.

Em algum momento, aprendeu. Descobriu que existe uma frase mágica capaz de tirar a dor de errar antes mesmo da tentativa. "Nem estudei pra essa prova." "Tô fazendo isso nas coxas." "Ah, tanto faz." Na primeira vez que você usou, veio um alívio meio torto. Se desse errado, a culpa ficava na falta de estudo, na pressa de quem saiu correndo. Nunca em você.

Esse truque não nasceu com você. Veio de fora, em doses pequenas. Na prova que voltava com a nota circulada de vermelho e virava notícia em casa, no "nossa, como você é inteligente" que soava como elogio e já trazia uma fatura estratosférica junto. Foi assim que você aprendeu que tinha um valor em jogo toda vez que tentava.

E tudo que se aprende pode se desaprender.

A criança da mão esticada, a que chutava sessenta e quatro sem o menor pudor, continua aí em algum canto. Ela não foi embora. Só foi ficando abafada debaixo de camadas de "tanto faz". E, para começar a tirar essas camadas, ajuda saber como o truque funciona.

Pra isso a gente vai precisar de um laboratório e dois comprimidos.

🙂 No microscópio

Imagina que te chamam para um experimento sobre o efeito de remédios na inteligência.

Você se senta numa sala, meio desconfortável, recebe uma folha de problemas de lógica e resolve um por um. No fim, o pesquisador confere o resultado, levanta a sobrancelha e diz que você foi muito bem. Bem acima da média. Você infla o peito quase sem perceber.

O que ninguém te conta é que aquela prova foi montada pra não ter solução. Nenhum dos problemas tinha resposta. O "muito bem" era falso. Plantado ali de propósito.

Então o pesquisador avisa que vem um segundo teste, parecido com o primeiro. E que, antes dele, você pode tomar um de dois comprimidos. Um se chama Actavil e turbina o seu desempenho. O outro se chama Pandocrin e estraga. A escolha é sua.

Pensa rápido. Qual deles você engole?

A aposta lógica é o que ajuda. Você acabou de ser elogiado e quer confirmar que é bom mesmo. Pega o Actavil, manda pra dentro com três goladas de água e parte pro abraço. Era exatamente o que os pesquisadores imaginavam que ia acontecer. Não aconteceu.

Em 1978, dois psicólogos americanos, Steven Berglas e Edward Jones, viram boa parte dos voluntários fazer o oposto. Na hora do segundo teste, muitos escolheram o comprimido que atrapalhava. De propósito. Preferiram entrar já sabotados.

Pra entender o porquê, aqui vai um detalhe que deixei de fora: nem todo mundo fez a mesma prova que você. Parte dos voluntários recebeu problemas de verdade, com solução.

Aí os dois grupos se separaram. Quem tinha resolvido de verdade não se abalava com o segundo teste. Já quem tinha sido elogiado sem fazer ideia de como entrava em pânico, carregando uma fama frágil que talvez não conseguisse repetir. Na conta final, 70% desse segundo grupo topou se sabotar, contra só 13% de quem tinha acertado por mérito.

Para essas pessoas, o segundo teste era pura ameaça. Se fossem com tudo e se dessem mal, a conta saía cara demais: o problema seria elas mesmas. Já com o comprimido errado no estômago, elas ganhavam um escudo. Se a coisa desandasse, a culpa era do remédio. A inteligência seguia lá, intacta, guardada, sem nunca passar por um teste de verdade.

Berglas e Jones batizaram isso de self-handicapping. A arte de criar obstáculos pra ter onde pendurar o fracasso, se ele aparecer.

Enquanto existe uma desculpa no caminho, dá pra sustentar a fantasia de que, sem ela, você teria arrasado. O Pandocrin, comprimido que a maioria tomou pra se proteger, mantém esse "e se" bem vivo. E enquanto o "e se" está de pé, você nunca precisa encarar seu teto.

Agora volta pra manhã da entrevista. Aqueles quinze minutos de atraso foram o seu Pandocrin caseiro. Você não se atrasou por acaso. Foi enrolando aos pouquinhos, fabricando um motivo pra guardar no bolso, para o caso de a coisa não dar certo.

O trânsito só levou a culpa no seu lugar.

E se isso tudo coube numa salinha com dois comprimidos de mentira, imagina num dos maiores torneios do mundo, com uma plateia inteira prendendo a respiração.

👀 Uma boa história

1997.

Uma quadra qualquer, num torneio pequeno que ninguém guardou o nome. Arquibancada pela metade. Eco de quadra vazia. No saibro, um careca de 27 anos, ranqueado em 141º do mundo. Tênis de segunda divisão, dos que distribuem mais formulário do que troféu.

Aquele careca era Andre Agassi. Poucos anos antes, tinha sido o jogador mais badalado do planeta. Cabeludo. Cheio de personalidade. Praticamente um roqueiro de raquete na mão.

O mais perturbador é que boa parte da queda foi obra dele.

Para entender, temos que voltar ao quintal da casa dele, em Las Vegas. O pai, ex-boxeador olímpico, montou ali uma máquina de cuspir bola que o menino apelidou de dragão. Pela conta do velho, eram 2.500 bolas por dia. Quase um milhão por ano. Antes de escolher ser qualquer coisa na vida, Andre já estava sendo lapidado pra ser o melhor numa coisa só.

Mas tinha um problema. Coisa boba... Acontece que ele odiava tênis com todas as forças.

Quando você é o melhor justo naquilo que detesta, surge uma saída tentadora. Nunca se entregar por inteiro. Assim, se a derrota vier, a culpa é da falta de vontade, e o talento segue intocado, sem nunca ir a julgamento. Esse instinto de se blindar tomou formas esquisitas para Andre. A mais famosa de todas tinha vinte grampos e cabia na cabeça dele.

Era 1990, sua primeira final de Grand Slam da vida, em Roland Garros. Na véspera, o aplique que ele usava pra esconder a calvície que começou aos 19 anos ameaçou desmanchar. Seu irmão varreu Paris inteira atrás de grampos. Voltou com vinte. No dia seguinte, Agassi entrou em quadra com mais medo da peruca do que do adversário. Imaginava aquela cabeleira aterrissando no saibro a cada salto. Rezou tanto pra ela aguentar que nem ligava para a vitória.

Perdeu, claro. E o engraçado é que ele põe a culpa na peruca até hoje, pra ninguém falar do tênis dele. Só do cabelo.

Mas a peruca era a parte fácil de enxergar. O pior ele fazia escondido. Tinha aprendido a perder de propósito. Não o perder de cara feia, que todo mundo vê. Um perder dissimulado, em que uma parte sua sabota no escuro enquanto a outra jura estar lutando. Você chega meio segundo atrasado na bola. Erra o que nunca erraria. Nunca pensa "vou perder". Só perde, e vai pra casa estranhamente aliviado.

Foi assim que ele jogou fora uma semifinal, só para não disputar a final e perder nela.

Mas dá para entregar coisas bem maiores que uma semifinal.

Em 1995, número 1 do mundo, Agassi começou a entregar o jogo dentro e fora da quadra. Em dois anos chegou ao 141º, exatamente onde a gente o encontrou lá no comecinho. Por baixo de tudo, sempre o mesmo medo. Ir com tudo e descobrir que talvez não fosse mais o melhor do mundo. Enquanto não desse o sangue, ninguém podia provar o contrário.

A virada veio em 99, na mesma Roland Garros da peruca. Agassi perdia de lavada quando a chuva interrompeu o jogo. O técnico partiu pra cima dele. Para de sentir pena de você. Para de querer ser perfeito. Bate logo na bola. E, se for pra cair, cai atirando. Aquilo pesou. Agassi voltou e fez o que evitava a vida inteira. Foi com tudo, ponto a ponto, sem se proteger. Virou e venceu. Fechou o Grand Slam de carreira, coisa pra poucos na história do tênis.

Sem peruca e sem álibi.

Agassi passou a carreira toda sabotando o próprio talento. Tem um personagem do cinema que vai ainda mais longe. Faz de tudo pra ninguém descobrir que o talento dele existe.

🎥 Qual é a boa?

Noite no MIT, universidade onde até um gênio da matemática se sente meio burro.

Cadeiras fora do lugar, lâmpadas zumbindo. No largo corredor, apenas armários azuis enfileirados como soldados e um faxineiro, empurrando a enceradeira. Ele para diante de um quadro e encara uma muralha de símbolos do mesmo jeito que você encara a conta de luz que veio o dobro do normal. Pega o giz. Resolve. E volta a encerar o corredor.

Aquele era um sistema avançado de Fourier, que o professor mais condecorado do prédio largou ali para que os estudantes tentassem resolver durante o semestre.

Seis meses para doutorandos do MIT resolverem um problema que o faxineiro resolveu em algumas horas, sem pestanejar.

No dia seguinte, a universidade está em polvorosa.

Os alunos levam o professor até o quadro. Eles encaram o problema. Ninguém faz ideia de quem resolveu aquele sistema, reservado a astrofísicos e ganhadores do prêmio Nobel.

Para desencavar o autor, o professor joga no quadro um segundo problema, que ele e os colegas levaram dois anos pra provar. Não demora para ele flagrar o faxineiro, de giz na mão, rabiscando a solução como quem preenche um caderno de palavra-cruzada.

O rapaz se chama Will. Tem vinte e poucos anos e foi criado na parte de Boston onde as viaturas andam em dupla. Ele passou a vida sendo jogado de lar adotivo em lar adotivo. Vítima de violência. Com inúmeras passagens na polícia. E um raciocínio de dar inveja.

O professor mostra pra ele tudo o que ele pode ser. Mas Will está sentado num bilhete premiado e não tem peito para trocar.

O que segura ele é o medo. Tentar pra valer é se expor, e quem se expõe pode ouvir um não. Então ele chega sempre na frente. Empurra para longe quem se aproxima demais e dá um chega pra lá em qualquer oportunidade, antes que ela cobre algo dele. Ficar pequeno é o único canto onde ninguém o alcança.

Quase todo mundo tem uma chance grande dobrada no bolso, esperando uma coragem que nunca chega. E cada um se protege como dá. Agassi tinha a peruca. O Will tem o esfregão.

E você?

Gênio Indomável é de 1997 e não envelheceu um dia. Escrito por Matt Damon e Ben Affleck, recebeu nove indicações ao Oscar, levando dois para casa (um, inclusive, único do Robin Williams). O filme está no Paramount+. Boa dica pra uma terça dessas. Quem sabe hoje?

😁 Pra levar

Admita. Antes de um compromisso importante, você sempre arma uma desculpa. Já deixa ela ali, à mão, pronta para o caso de precisar. Às vezes, nem percebe que faz isso.

Vira a noite no celular na véspera do grande dia. Avisa para todo mundo, sem ninguém perguntar, que "nem se preparou direito"...

Cada uma dessas é um grampo segurando a sua peruca no lugar.

Essa semana, quando flagrar a desculpa sendo montada, deixa ela cair.

Não precisa mudar muita coisa. Só tira o álibi da jogada. Uma vez que seja.

👋 Até terça

Quando a bola do adversário voou pra fora, em 1999, Agassi ergueu os braços e a raquete caiu pesada no chão. Chorava e esfregava a cabeça careca, a bochecha tão vermelha quanto o saibro embaixo dos pés. Dessa vez, não tinha grampo nenhum segurando nada.

Levou uma vida inteira de fugas pra chegar ali.

Não precisava.

Na semana que vem, a gente fala sobre fracasso. Sobre por que perder por pouco pode, anos depois, te levar mais longe do que ter ganhado. Tem um estudo que achou isso onde ninguém estava olhando. E ele pode mudar a sua vida para melhor. Muito melhor.

👋 Até terça!

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