📌 Puxe a cadeira

Quase oito da manhã na padaria do bairro.

Você entra na fila e recosta na vitrine. Tem cinco pessoas na sua frente. Uma senhora pede meio quilo de presunto cozido. Outra pede pra cortar o queijo bem fininho. Você olha pro mostrador de pães vazio. Revira a chave no bolso. Assobia o jingle do carro de gás.

O padeiro chega com uma cesta de pães frescos.

Em duas piscadelas, você não está mais ali. Está na aconchegante cozinha dos seus pais.

A televisão da sala passa a abertura da Fórmula 1, com Galvão Bueno prestes a apresentar o grid. Seu pai está em pé do seu lado, perto da pia. A sanduicheira chia com o pão francês prensado com queijo Regina escorrendo pelas bordas. A garrafa térmica do café acabou de chegar na mesa. O Globo está aberto no caderno de esportes. Fluminense virou em cima do Flamengo no Maracanã. 3 a 2. Gol aos quarenta e cinco do segundo tempo. Seu pai dá uma olhada no jornal e solta um "bem feito!", com aquele sorriso que te faz tanta falta.

Tudo isso aconteceu há vinte anos, mas você sente agora.

O atendente te chama pelo número com a paciência de inspetor de colégio quando o último sinal toca. As pessoas da fila te olham de cara feia. Não deve ter sido a primeira vez.

Você acabou de fazer aquilo que esses coaches do Instagram vendem com etiqueta de "técnica avançada de visualização guiada”. De graça. Em pé na fila do pão. Mais nítido do que qualquer meditação guiada que você desistiu de ouvir antes do primeiro minuto.

Por quê?

Nem tudo tá perdido

A resposta é simples.

Visualização é uma técnica que os coaches vendem. Imaginação é uma coisa muito maior.

Ela é como um músculo. Treina e atrofia que nem qualquer outro.

Foi exatamente esse “músculo” que te transportou. Ele está com você desde a infância e continua intacto na sua cabeça, mesmo que você tenha parado de usar.

Lembre como você dominava ele aos sete anos.

O chão da sala virava lava em três segundos, até sua mãe chamar pro almoço. Você pulava de almofada em almofada com a convicção física de quem sabe que pisar fora é morrer carbonizado. O cabo de vassoura virava espada quando precisava ser espada, e cetro quando você se proclamava o rei do quintal dos fundos. Lençóis presos entre duas cadeiras na sala da TV faziam uma cabana onde cabia o universo inteiro, com mapa do tesouro e biscoito Bono de morango surrupiado da despensa ao melhor estilo La Casa de Papel.

Aos sete anos, você usava esse músculo pra construir mundos fantásticos. Aos trinta, usa pra projetar o resultado da reunião. Isso quando o GPT não faz o trabalho por você.

Quando o coach pede que você "se visualize aceitando o prêmio", é esse músculo atrofiado pelo escritório que ele está tentando reativar com cinco minutos de aquecimento. Não rola. É como tentar erguer 80 quilos no banco depois de um ano inteiro fugindo da academia.

A boa notícia é que ele continua aí. Mais forte do que você imagina.

🙂 No microscópio

Num laboratório em Athens, Ohio, em algum momento de 2014, vinte e nove pessoas saudáveis aceitaram passar quatro semanas com um braço inteiro dentro de um gesso.

Do cotovelo aos dedos.

Não dava pra segurar nem um cafezinho. Isso sem falar na coceira e no futum que o gesso dá. Já sentiu? Não tem a mínima possibilidade de alguém me convencer a passar quatro semanas com um braço saudável aprisionado num gesso. Mas quem topou o experimento entendia tudo isso. E ainda mais: sabia que o braço ia atrofiar e a força ia embora.

Era esse o ponto.

Brian Clark, professor de fisiologia da Ohio University, queria saber se um truque mental poderia interferir nessa perda. A pergunta tinha história. Dez anos antes, na Cleveland Clinic, uma equipe tinha pedido para que voluntários imaginassem contrair o dedo mínimo cinco vezes por semana. Em doze semanas, o músculo estava 35% mais forte. Sem academia nem nada. Clark queria ver o avesso: dava pra impedir atrofia só imaginando?

Ele dividiu os voluntários em dois grupos: metade "só" precisava ficar com o gesso. A outra tinha que imaginar que estava contraindo o pulso engessado com toda a força. 5 segundos contraindo. 5 descansando. Cinco vezes por semana. Sem mover nada, claro.

Vinte e oito dias depois, os gessos saíram (ufa!) e os resultados impressionaram os pesquisadores. O grupo que ficou parado perdeu 45% da força do pulso. O que imaginou os exercícios perdeu 24%. Quase metade do estrago foi evitada por uma operação que não envolveu uma única fibra muscular dessas pessoas. Só a imaginação.

O corpo não percebe que o cérebro está só imaginando.

Funciona assim: imagine uma linha telefônica antiga, dessas de disco e fio, conectando seu cérebro a cada músculo do corpo. Quando você imagina contrair o bíceps, o cérebro disca pro bíceps. — Alô? O bíceps atende. Só que a chamada cai antes da ordem chegar inteira, então ele não levanta haltere nenhum. Tu tu tu tu tu. A linha, em compensação, foi usada. Enquanto você usar a linha, ela responde. Se parar de usar, ela desconecta.

Esse foi o resultado em quatro semanas de experimento num laboratório. Agora imagine dezesseis anos. Numa vida.

👀 Uma boa história

Bulgária. Maio de 1995. Madrugada de garoa fina.

Um pianista de cinquenta e quatro anos volta caminhando da casa de uma amiga onde estudava piano. Está em Sofia, gravando a obra completa de Bach para teclado, um projeto que tinha começado em 1979. Em algum momento, dois homens aparecem e tentam assaltá-lo. João Carlos chuta um deles e corre. Uma barra de ferro o atinge na cabeça.

Quando o taxista o encontra horas depois, ainda estendido na calçada, ele está vivo.

João Carlos Martins. Renomado pianista brasileiro. Descrito pelo Boston Globe como o pianista de Bach mais empolgante desde Glenn Gould. O mundo todo estava falando dele. Mas o que importa pra essa edição não cabe em adjetivo de imprensa alguma.

Cabe nas pequenas histórias.

Quando o pai comprou o primeiro piano da família, João tinha sete anos. Quinze dias depois, tocava o primeiro movimento da Sonata ao Luar de Beethoven. Aos nove anos, ganhou um concurso da Sociedade Bach. Aos treze, na estreia oficial no Teatro Colombo de São Paulo, Guiomar Novaes, a maior pianista brasileira da época, disse que talento como aquele só aparecia uma vez por século. Aos dezesseis, Villa-Lobos pediu pra ouvir ele tocar. Numa parte que estava marcada pra ser tocada forte, João fez o oposto. Tocou suave e foi crescendo. Villa-Lobos falou: "Você é muito atrevido, menino. Mas ficou mais bonito."

A vida foi adiante, e foi cara. Desde a adolescência, João sentia movimentos involuntários nos dedos depois dos concertos. A medicina ainda não tinha nome pra aquilo. Décadas depois, descobririam: distonia focal do músico. Doença rara, sem cura. Em 1965, num jogo de futebol no Central Park de Nova York, uma pedra entrou no nervo ulnar do braço direito do músico. A mão atrofiou. Sete meses de fisioterapia recuperaram o movimento, mas os tremores da distonia continuavam vindo depois de cada concerto, cada vez mais fortes.

Aos trinta, no Lincoln Center, a distonia cobrou seu preço. A crítica do New York Times foi devastadora. Ele desabou. Vendeu todos os pianos, voltou ao Brasil e virou empresário de boxe. Foi nessa fase improvável que conheceu Éder Jofre e provocou o boxeador aposentado a voltar ao ringue. Em 1973, Jofre conquistou o título mundial aos trinta e sete anos. Quando o juiz ergueu a mão dele, João Carlos jurou voltar a tocar.

Cinco anos depois, no Carnegie Hall lotado, trezentas pessoas se acomodaram no próprio palco, ao lado do piano. Ele tocou quarenta e oito peças de Bach numa noite só.

Oito minutos após o último acorde, o público ainda estava em pé.

A partir dali, João Carlos embarcou no projeto de gravar a obra completa de Bach para teclado. Foi no meio dessa gravação, em Sofia, que a barra de ferro o acertou.

Aquele homem caminhando na Bulgária carregava todas essas histórias dentro dele. E essas histórias o sustentavam.

A barra de ferro causou lesão cerebral. João Carlos passou onze meses em Miami fazendo biofeedback. Imaginava contrair os dedos repetidamente, todos os dias, pra forçar o cérebro a recriar os circuitos motores que tinha perdido. Em maio de 1996, voltou ao Carnegie Hall com a American Symphony. Tocou Ravel e Ginastera. Cinco minutos de aplausos em pé.

Em 1998, no Barbican Centre de Londres, fez o último concerto com as duas mãos. Quando desceu do palco, disse à esposa: "Acabou." Por quatro anos continuou tocando só com a esquerda em palcos pelo mundo. Em 2002, em Pequim, a distonia avançou também na mão esquerda. Deu o último concerto como pianista. Tinha sessenta e dois anos e cinquenta e cinco de piano nas costas. A plateia não sabia que aquela tinha sido a última vez.

A história podia ter parado ali. Mas em 2003, ele teve um sonho. Eleazar de Carvalho, regente lendário e velho amigo, apareceu e disse: "João, vai ser maestro. Você é músico." Ele não pensou duas vezes. Acordou e foi se inscrever numa escola de música. Tinha sessenta e três anos. Um ano depois, sabia a Nona Sinfonia de Beethoven inteira de cor.

E aqui a edição respira. Aqui você precisa ler devagar.

Durante dezesseis anos, sem poder colocar as duas mãos no teclado, João Carlos decorou cento e cinquenta partituras. Reger uma sinfonia exige imaginar cada nota antes dela acontecer, todos os dias, ainda que um único instrumento não toque ali. Por dezesseis anos, foi assim que ele praticou Bach. Numa entrevista desses anos, soltou uma frase que explica tudo: "Nasci pianista. Quero morrer pianista. Acordo todos os dias pensando nisso."

A chance veio em formato improvável.

Pouco antes do Natal de 2019, depois de um concerto no interior de São Paulo, um designer industrial esperou na calçada do teatro até conseguir burlar a segurança e chegar ao camarim. Chamava-se Ubiratã Bizarro Costa. Tinha visto uma entrevista do maestro na televisão um ano antes e, inspirado na suspensão dos carros de Fórmula 1, projetou em casa um par de luvas pretas com hastes de aço, fibra de carbono e neoprene.

As luvas funcionaram. Nas semanas seguintes, no Edifício Caraguatatuba, onde o maestro morava há mais de quarenta anos, os vizinhos do último andar voltaram a ouvir o som do piano. Tinha mais de vinte anos que aquele apartamento estava em silêncio.

Em janeiro de 2020, no aniversário de São Paulo, o Theatro Municipal estava lotado. A Orquestra Bachiana Filarmônica já ocupava o palco. João Carlos Martins ajeitou as luvas, sentou ao piano e tocou em público com as duas mãos pela primeira vez desde aquele concerto em Londres, em 1998. Vinte e dois anos depois. Não dá pra escrever isso sem se emocionar. Vinte e dois anos sem que aquelas mãos tocassem juntas uma única nota em palco.

Quando os dedos do nosso pianista encostaram nas teclas frias do piano de cauda, ele deve ter se sentido aquele garoto atrevido que tocou para Villa-Lobos.

Bach respondeu de dentro. Tinha estado lá esse tempo todo.

🎥 Qual é a boa?

Ponte para Terabítia chegou em 2007 com cara de aventura infantil. Era cilada.

A primeira hora até cumpre o trato: aventura, fantasia, criança imaginativa. Você relaxa comendo seu balde de pipoca. Mas a meia hora final vira outra coisa. Sem aviso. Você sai do cinema dizendo pra todo mundo que tinha alguma coisa no olho.

Provavelmente nunca quis ver de novo. Mas tenho certeza de que o filme ficou.

Jess Aarons tem dez anos, quatro irmãs e nenhum amigo de verdade. Desenha o tempo todo num caderno. Tem criaturas lá dentro que nem ele entende de onde vieram. É o tipo de menino que se senta no fundo da sala e tira a melhor nota em desenho. Leslie Burke é nova na escola. Mora ao lado dele, numa casa cheia de livros e sem TV (coisa de filme, né?).

No primeiro dia de aula, a professora pede uma redação sobre o passatempo favorito. Leslie escreve sobre mergulhar no Japão. Lê em voz alta pra turma. Detalha o silêncio embaixo d'água, as bolhas subindo, os peixes-espada esperando no escuro. A turma fica em silêncio, com os olhos arregalados. Jess também. Mas o silêncio dele é de outro tipo.

Quando Jess pergunta depois se ela mergulhou mesmo, Leslie dá de ombros e fala uma verdade que a gente não costuma admitir: "Não. Só inventei. É diferente de mentir."

No recreio seguinte, ela pediu pra correr com os meninos. Ganhou. Foi assim que começou.

Foi Leslie que levou Jess até o lugar mais alto do bosque atrás da casa pela primeira vez. Ela pediu pra ele fechar os olhos. E abrir a mente. Quando ele abriu, o bosque era Terabítia. O riacho marcava a divisa do reino. A corda velha pendurada numa árvore servia de ponte de acesso. Eles voltavam todo dia. Cada tarde tinha um inimigo novo: tropas escondidas atrás de árvores, criaturas que só eles dois enxergavam. Voltavam pra casa esfomeados, com galhos na cabeça e terra nos joelhos. O reino existia enquanto eles imaginavam juntos.

Aí o filme decide te quebrar (eu disse que era cilada, Bino!). Jess precisa imaginar sozinho, sem aviso. E a gente acompanha ele descobrir, devagar, que o reino ainda está lá.

Inventar é diferente de mentir. Inventar é imaginar. Basta fechar os olhos e manter a mente bem aberta.

Aos dez anos, Jess fez isso no bosque com Leslie. Aos trinta, você fez na fila do pão.

😁 Pra levar

Esta semana, na fila do pão, feche os olhos por dez segundos.

E mantenha a mente bem aberta.

Escolha um lugar do seu passado. Não force nada. Só deixe o cérebro te levar pra lá usando a imaginação. O cheiro vem primeiro. Depois o som. Depois o resto.

Você vai notar que o músculo continua lá. Mais forte do que você imagina. Mesmo depois de tanto tempo só servindo pra projetar a planilha de uma reunião que podia ter sido um e-mail.

👋 Até terça

Em algum lugar do mundo, João Carlos Martins, com 85 anos, está ao piano tocando Bach contra todas as expectativas.

É isso que a imaginação faz por você.

Na semana que vem, o papo é sobre autossabotagem. Como você é capaz de gastar três meses se preparando pra uma entrevista importante e chegar quinze minutos atrasado no dia. Tem nome científico, e o motivo é bem mais interessante do que você imagina.

Nos vemos lá.

👋 Até terça!

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