📌 Puxe a cadeira

Tec. Tec. Tec.
Você escreve o e-mail. Tec. Muda uma palavra. Relê. Tec. Troca a palavra de volta e vai buscar um cafezinho pra espairecer. Relê de novo. Teeeeec. Corta o último parágrafo. Tec. Tec. Tec. Reescreve o último parágrafo. Bufa. Lê em voz alta. Acha tudo uma grande porcaria, mas se dá por vencido porque tem mil outras coisas pra fazer. Clique. Clique. Clique. CLIQUE! Espanca o botão de enviar e segue.

Dois segundos depois, reabre a caixa de enviados e relê o e-mail. Era um e-mail de cinco linhas confirmando presença num almoço.

Você sabe que faz isso. E não é só com e-mails. É com a receita que você fez, mas passou o jantar inteiro falando que tava sem sal. Com o cartão de dia das mães que você ajeitou no ChatGPT. Com a conversa com o chefe, pra pedir aquela promoção merecida, que você vive adiando.
Com o presente que você já entregou dizendo que o aniversariante podia trocar. Com a foto que você tirou e só teve coragem de postar depois que ajeitou no Airbrush.
Eu também faço isso. Reescrevi essa frase três vezes antes de deixar ela aqui.
Você sabe como essa história termina.
✋ Nem tudo tá perdido

A gente chama o perfeccionismo de capricho e nunca para pra refletir que pode ser outra coisa.

Mas experimenta pensar em algo que você fazia bem quando não tinha plateia. O inglês que você falava sem ficar com a cara vermelha porque não tinha ninguém pra julgar seu sotaque.
O futebol de domingo que você jogava até escurecer porque o placar não fazia diferença. A música que você cantava a plenos pulmões no chuveiro sem se importar em desafinar.
Em algum momento as coisas mudaram. E de repente você passou a se sentir dentro de uma competição do Masterchef sem saber cozinhar nem um feijão sem ligar pra sua mãe. Aí você parou de arriscar, com medo do Érick Jacquin brotar de dentro da tela do seu notebook e gritar:
"Você é a vergonha da profission!"

Pode parecer engraçado. Mas isso tem um nome que a gente raramente usa porque soa pesado demais. Medo de errar. De mostrar algo imperfeito e ouvir, mesmo que só na própria cabeça, que não era bom o suficiente. Então a gente espera o momento certo. Mas ele nunca chega. E no lugar da frustração, vem o alívio. Porque pelo menos ninguém te viu tentar.
Mais um projeto engavetado. Cortesia do perfeccionismo. E a culpa não é do Jacquin.
A ciência tem uma explicação para isso. 👇
🙂 No microscópio

Você já ficou acordado até tarde repassando uma conversa que aconteceu de manhã?
Não uma discussão. Uma conversa normal. Só que uma frase ficou ecoando na sua cabeça. Você achou que podia ter dito diferente. Podia ter sido mais claro. Na hora do almoço, a pessoa provavelmente já tinha esquecido o assunto. Você ainda está acordado às 2h pensando nisso.


Parece diferente de engavetar um projeto. Mas é o mesmo mecanismo. A mesma voz que diz que você podia ter feito melhor é a que te paralisa antes de você tentar. Kenneth Rice, psicólogo da Universidade da Flórida, conhece bem esse tipo de pessoa. E queria entender o que acontece com ela ao longo do tempo. Ele acompanhou centenas de estudantes por um semestre inteiro, medindo três coisas: o quanto se cobravam, o quanto procrastinavam e o quanto sofriam com isso.
A hipótese dele era direta: quem se cobra demais procrastina mais. Quem procrastina mais sofre mais no fim. Fazia sentido. Só que não era o que os dados mostravam.
O aluno que procrastinava não era necessariamente o que chegava destruído na semana de provas. O que chegava destruído era o que tinha um padrão tão alto que qualquer resultado que não fosse perfeito virava evidência de que ele não era bom o suficiente. Tinha feito tudo certo. Entregado no prazo, tirado uma nota razoável. Ainda assim não estava satisfeito.
Rice chama isso de perfeccionismo mal-adaptativo: quando o padrão deixa de medir o que você faz e começa a medir o quanto você vale. Aí o projeto ruim deixa de ser um projeto ruim e vira uma confirmação daquela suspeita antiga que você carrega. A de que o problema é você.
Talvez seja você.
Se for, quero que saiba que carregar a suspeita não é o grande problema da sua vida. O grande problema é achar que ela tem razão.
E por falar nisso…
👀 Uma boa história

Em 2003, a Pixar tinha um problema.
O filme que estava produzindo não funcionava. O público de teste odiava o protagonista. Sem entender por que Marlin era tão ansioso e superprotetor, as pessoas achavam que ele era só chato e sufocante. Ninguém torcia por ele. As avaliações eram péssimas.
Na última exibição antes do lançamento, toda a equipe ficou em silêncio. Até o animador, Jason Deamer, foi pra casa desanimado. Certo de que tinham feito o primeiro filme ruim da Pixar.
Lee Unkrich não estava tão certo assim. O co-diretor teve um estalo. O público não entendia por que Marlin era assim porque a morte da família dele aparecia em flashbacks ao longo do filme. Lee não refez nada.
Não contratou novos animadores, não pediu mais orçamento. Pegou o que já existia e moveu pro primeiro minuto. De repente o público entendia Marlin. Torcia por ele.
Anos de trabalho salvos por um Ctrl+C Ctrl+V.

O filme virou Procurando Nemo, uma das animações de maior bilheteria da época, vencedora do Oscar de melhor animação e com 99% de aprovação da crítica no Rotten Tomatoes.

Ed Catmull, cofundador da Pixar, não ficou surpreso. Ele tem um nome pra essa fase. "Ugly baby": ideias boas que parecem ruins antes de crescer. Catmull diz que as primeiras versões de todos os filmes da Pixar são horríveis. E que o trabalho não é evitar essa fase. É atravessá-la.
Você também pode ter uma ideia dessa escondida no fundo da gaveta. E tirar ela de lá é só metade da solução. A outra metade é o que você faz com ela, mesmo imperfeita.
Tem uma série que mostra isso na prática, com uma personagem que não espera estar pronta.
🎥 Qual é a boa?

Fleabag começa do jeito que muita gente passa a vida tentando evitar: dizendo a verdade.
Cedo demais.
Nos primeiros minutos da série, a protagonista olha pra câmera e fala sobre um assunto que você talvez nunca tenha falado. Nem com seu melhor amigo. E faz isso com a naturalidade de quem tá perguntando se você quer o seu café com açúcar ou sem.
Phoebe Waller-Bridge, criadora e protagonista da série, disse numa entrevista que queria escrever uma personagem que seguisse os próprios impulsos e se preocupasse com as consequências depois. Exatamente o contrário do que o perfeccionista faz quando transforma tudo numa reunião de condomínio dentro da própria cabeça, com ata e tudo.

No seu condomínio, Fleabag seria aquela vizinha que grita pra você segurar a porta do elevador quando você tá com pressa, entra esbaforida, cheia de sacolas nos braços, solta uma verdade que ninguém teve coragem de dizer, e desce no andar dela antes que você consiga responder.

Ao longo da série, ela erra. Muito. Carrega culpa, luto, a suspeita constante de que é uma pessoa ruim. E ainda assim aparece. E mesmo quando alguém percebe pela primeira vez que ela está olhando pra câmera e que existe algo que ela esconde de todo mundo, ela não para.
Continua.
Nós, perfeccionistas, poderíamos aprender
alguma coisa com isso.
E não vai ser uma tarefa difícil.
A série está disponível na Amazon Prime, tem 100% de aprovação no Rotten Tomatoes e já ganhou 3 Emmys e 2 Globos de Ouro.

😁 Pra levar
Tem alguma coisa parada na sua vida esperando estar pronta.
Você sabe qual é. Ela provavelmente está na sua gaveta, guardada a sete chaves. Abre.

Não precisa ser a versão final de nada. Pode ser só um rascunho. Uma ideia inacabada. O medo vai estar lá, de qualquer forma, quando você abrir. Ele sempre está. Mas ele não tem voto.
O objetivo não é sair perfeito. Só precisa sair da gaveta.
👋 Até terça
Enquanto você espera, o tempo passa.

Tique. Taque. Tec. Tec. Tec.
O e-mail confirmando o almoço vai ser enviado. Eventualmente.
Com uma vírgula errada, talvez. Com um parágrafo que você ia reescrever mas acabou mandando antes, sem querer. Com aquela frase que ficou atrapalhando seu sono até a próxima quarta. Sem aquele anexo que você prometeu enviar e teve que ficar pra outro e-mail.
Mesmo assim, o almoço acontece.
Na semana que vem, a gente fala sobre desacelerar. Não o tipo de desacelerar que exige uma pausa de uma semana num retiro espiritual no interior de Minas. O tipo que já está disponível pra você hoje, no intervalo entre uma coisa e outra.
